quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As Meninas - Questões


QUESTÕES PARA REFLETIR AS MENINAS  de Lygia Fagundes Telles

01. Sobre o romance As Meninas de Lygia Fagundes Telles é correto afirmar:
(   ) O tempo da narrativa acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente.
(  ) A obra mostra um mundo em que os ideais de esquerda tornam-se a única alternativa para enfrentar a dureza do regime e explicar o mundo desordenado.
(  ) O pensionato no qual se desenrola a ação é um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador e consegue impedir qualquer intromissão do mundo externo.
(   ) Toda a ação se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas experiências em busca de auto-conhecimento.
(   ) O foco narrativo é cambiante: ele se desloca constantemente e inesperadamente para o fluxo de consciência das três protagonistas

02. Sobre a personagem Lorena Vaz Leme só não se pode afirmar:
01) Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular.
02) Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado
03) Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato
04) o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente conflito com o mundo exterior.
05) Demonstra sentimentos de superioridade e concretiza este sentimento no distanciamento das outras duas companheiras

03. Sobre Lia de Melo Shultz só não se pode afirmar:
01) veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.
02) Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista.
03) Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político e na segurança que encontra no amor de Miguel.
04) Dedica todo seu tempo à reivindicação política, fato que a torna frágil nas relações pessoais e insegura na sua sexualidade pouco explorada.
05) Estuda Ciências Sociais e participa do foco de agitações estudantis, onde se envolve com um grupo militante da esquerda

04. Sobre Ana Clara Conceição só não se pode afirmar:

01) Apresenta temperamento problemático e personalidade inconsistente
02) Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos.
03) Não obstante sua vida seja marcada pela pobreza, possui espírito prático e decidido e assim planeja casar-se com um homem rico.
04) Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos, cheiros, etc
05) Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros

Leia o texto e responda:
- Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.
- Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.
Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.
- Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.
- Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.
Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.

05. Sobre o texto acima é incorreto afirmar que:
01) Lia apresenta faz uma leitura do mundo como cruel e fragmentado em que as múltiplas misérias são resultado da desorientação em que se encontra o ser humano.
02)  Na ótica da personagem o romantismo religioso e social apenas mascaram a brutalidade da condição humana.
03) O discurso de lia representa sua inabalável crença em suas ideologias reformistas e pretende convencer a religiosa da importância de suas colocações.
04) O discurso sobre a sensação de segurança individual é coerente com o momento histórico que a obra literária representa.
05) A personagem faz referência aos setores da igreja que assumiram posição contrária ao regime.

06. Sobre a divagação da personagem que intercala os discursos diretos, pode-se dizer que:
01) Sua distração indica a pouca importância da política para a personagem
02) O espanto com a aparição da abelha “numa noite dessas” amplia a condição de descrença e insegurança.
03) Sendo escritora, Lia escreve sobre animais e gostaria de dedicar-se às abelhas.
04) Este monólogo interior é estranho ao diálogo entre Lia e Irma Alix em somente atrapalha a compreensão do texto.
05) A referência à fábula da cigarra e da formiga revela a consciência infantil da personagem Lia.

Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé. [...]
Que idéia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
– Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato.

Estou demais aperreada para ficar ouvindo sentimentos lorenenses, ô! Miguel, como preciso de você. Falo baixo mas devo estar botando fogo pelo nariz.
(TELLES 1998: 13-14)

07. O texto acima
01) Indica o engajamento político das jovens ainda que em nível diferente
02) Aponta para a semelhança de comportamento entre as duas personagens
03) Revela como cada personagem está comprometida com o seus próprios anseios e ideais
04) Indica o altruísmo de ambas as personagens, já que formam uma amizade verdadeira.
05) Denuncia a indiferença e o egoísmo das personagens, que mentem e falseiam a amizade demonstrada.

“Padrão afro. Tem mulher hino e mulher balada”, pensou Lorena tirando o pijama. Sentou-se na borda da banheira e percorreu com as pontas dos dedos a superfície da água. “Eu sou uma balada medieval.” E Ana Clara? E Lia? Que gênero de música eram elas? A única forma de ajudá-las seria oferecer-lhes coisas que não tinham.
dálias mas fazia frio. (TELLES 1998: 59-60)

08. Lorena, ao designar para si a “Balada medieval”:
01) faz referência à religiosidade profunda, marca da personagem.
02) revela o moralismo profundo que a torna amarga e inquisitória
03) indica sua tendência para a idealização e a sua espera amorosa.
04) pretende colocar-se de forma superior às amigas por quem nutre aversão.
05) indica a orientação para a culpa e para o remorso.

As Meninas - Lygia Fagundes Telles


AS MENINAS
Lygia Fagundes Telles

O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente. O encanto e a dificuldade aparente da leitura repousam no foco narrativo cambiante: Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz contam a
própria história através do fluxo de consciência, misturando suas falas, ações, lembranças e críticas recíprocas. Depois dessa surpresa inicial, o leitor acaba por identificar o estilo de cada personagem e sente-se desafiado a desvendar o universo interior das três "meninas"- uma paulista quatrocentona, uma baiana "terrorista" e uma modelo de moral "duvidosa" e viciada em drogas. Os capítulos não têm nome, mas números.


ENREDO
"Um" - Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz,
que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o
carro de "mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena, conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos freqüentes
presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (Aliás, passa o livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranqüilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao contrário", para dar sorte) para o "aparelho" (=grupo de resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas conseqüências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da (s) amiga (s).

"Dois" - Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus - e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos
(ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos amantes.Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as jóias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é difícil e complicado.

"Três" - Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade com o texto "A Máquina do mundo", de Carlos Drummond de Andrade), como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora a chegada de Lia e A. Clara e a "invasão" das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e magra, mostra certa inveja da
beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino", enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara "arrombou" a
privacidade de Lorena, obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima, mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na falta de luz e subseqüente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor edipiano.

"Quatro" - Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (A. Clara) sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços - "Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de ouro" (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o
suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa na praia, onde A. Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

"Cinco" - Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante, Beatriz) , em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e
as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo").
Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias.
Coloca um Noturno de Chopin e serve constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

"Seis" - Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia ("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano), engajamento políticosocial, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre,
que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade, do presente (fases da vida!...); de A. Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro.
Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que serve para a vida das duas: "Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei" (Gênesis).

"Sete" - Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema... Quer ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em latim,
enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas mostram-se preocupadas com a gravidez de Ana "Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira vez"(M.N. é ginecologista, um "gentleman").

"Oito" - Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm álbum de retratos...
Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar seus sumiço. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 h da noite. Não consegue táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de boêmio - retratos na parede,
vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

"Nove" - Na banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo - na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto-identificação, transferência de afetos. Lia quer provar
que M.N. está mais para pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

"Dez" - Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra Dr. Francis.
Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum de fotos na garagem:
acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por auto-defesa. Ganha roupas e mala para a viagem.

"Onze" - Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente A. Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente
Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que Guga virá procurá-la. Não vêem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois a "dor do remorso dói mais que a dor física"(Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: A. Clara está morta.

"Doze" - Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de A. Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela amiga, além dos "discursos". A bolsa de A. Clara está aberta: talvez dali ela tirara a própria morte. Lorena tem idéias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta A. Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pista comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As duas amigas carregam A. Clara através da noite providencialmente nebulosa e abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

AÇÃO
A ação do livro é prevalentemente interiorizada. Quase nada acontece na realidade exterior; a vidinha pacata e rotineira no pensionato, as conversas intermináveis, os estudos, as visitas das personagens ao redor do quarto de Lorena - centro daquele microcosmo -, poucos momentos na faculdade e no "aparelho"; as atitudes contraditórias de Ana Clara e sua morte; a solução dada pelas amigas para se livrarem de um cadáver comprometedor. Tudo se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas experiências em busca de auto-conhecimento, de solução para seus traumas e conflitos interiores, para a exorcização de seus "fantasmas".

PERSONAGENS
Lorena Vaz Leme, filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com freqüência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do
irmão e a subseqüente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena tenta "equilibrar-se" fechando-se em uma concha dourada dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas freqüentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de A. Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a
impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

Lia de Melo Schultz serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência. Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso.
Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

Ana Clara Conceição apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente. Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida. Ana foi seduzida por um dentista, que abusa sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes. Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada,
cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.

TEMPO
Subjaz à narrativa uma seqüência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente. Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais das três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias.

ESPAÇO
Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os mortos".

FOCO NARRATIVO
O foco narrativo em primeira pessoa é manipulado pela Autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente (e inesperadamente!) para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-nos nessas freqüentes invasões à privacidade de A. Clara, Lorena e Lião, que se vão desnudando paulatinamente diante de nós. Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lião e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva". Superada essa dificuldade, o leitor mergulha de corpo e alma no universo fantástico dessas três meninas encantadoras, representantes autênticas daquele que foi um dos períodos mais importantes e difíceis para a emancipação da mulher, para a liberdade de pensamento e para a realização individual dentro de um universo politicamente conturbado. O romance As Meninas oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de três pessoas em busca de si mesmas; de outro, uma amostra dos problemas cruciais que agitaram a juventude durante um dos períodos mais conturbados da história do Brasil, que Lygia Fagundes Telles teve a ousadia e a coragem de denunciar.

Bagagem - Questões


QUESTÕES PARA REFLETIR BAGAGEM de Adélia Prado

01. Assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S) com relação às obras Bagagem, de Adélia Prado.

( ) Em Bagagem, a autora explora temas do cotidiano e, em muitos de seus poemas, homenageia autores como Carlos Drummond de Andrade, utilizando, principalmente, a intertextualidade.
(   ) Apesar de tratar de temas que envolvem o cotidiano, Adélia Prado, em Bagagem, preferiu não abordar a religião, pois, segundo ela, “cada um tem o direito de acreditar no que quiser”.
(   ) Adélia Prado, como maior representante da poética dos anos 40, na Segunda Fase Modernista, apresenta em sua obra, quanto à forma, preocupação com a métrica e a rima; e quanto à temática, referência à realidade de modo vago e impreciso
( )  Em Bagagem, seu primeiro livro de poesias, os poemas são distribuídos em quatro grandes seções. Elas se configuram segundo um variado mapa existencial, que se divide entre as coordenadas da “poesia”, do “amor” e da “memória”, além daquela “alfândega”, de sentido escorregadio, mas sugestivo.
(  ) Pode-se destacar na escrita de Adélia fortes imagens do cotidiano doméstico, procurando neste um sentido mais profundo, dando-lhe, assim, um espiritualismo místico. Adélia é  sobretudo contemplativa em seu dizer poético.

02. Analise as afirmativas sobre a obra Bagagem, de Adélia Prado:

I - A linguagem intertextual, intimista, mística, feminista e pessimista está presente em sua obra desde a estréia, em 1976, com Bagagem.
II - A mineira Adélia Prado, apontada como "narradora e poeta de veia drummondiana, de respiro universal e tentação metapoética, com umas incursões muito femininas nos campos irônicos do absurdo".
III - Pode-se afirmar que Com licença poética é uma paródia do Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade. O diálogo explícito com Drummond ocorre nos três versos iniciais: “Quando nasci um anjo esbelto,/ desses que tocam trombeta, anunciou:/ vai carregar bandeira.” Nos versos mediais, a oposição a Drummond é mais implícita, já que esse espaço é reservado para os múltiplos desdobramentos" da personagem adeliana.
IV - Poema de sete faces, predominantemente pessimista, é transformado por Adélia Prado numa ode à mulher, que aceita "os subterfúgios que [lhe] cabem,/ sem precisar mentir". A mulher fortifica-se pelo fato de ser desdobrável, ao contrário do homem do Poema de sete faces que acaba preferindo embebedar-se a enfrentar os obstáculos impostos pela vida.
V- Ela pede licença para introduzir-se no universo da literatura e inverter o sentido de vários elementos do Poema de sete faces. O anjo torto de Drummond torna-se esbelto no poema de Adélia Prado, já não mais vive na sombra, agora toca trombeta, deixando de anunciar que alguém será gauche na vida, mas, ao contrário, vai carregar bandeira, ter uma posição de destaque. Por sinal, existe a semelhança sonora da palavra gauche, de Drummond, ressoando na escolha de Adélia Prado por coxo.

Estão corretas as afirmativas:

(A) I, II, III, IV e V.
(B) I, III e V somente.
(C) II, IV e V somente.
(D) I, II e III somente.
(E) II, III, IV e V somente

Enredo para um tema

Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de estórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.
(Adélia Prado: Bagagem.)

03. Assinale a alternativa incorreta, em relação ao texto.

a) Em Bagagem, seu livro de estréia, a poeta apresenta poemas imbuídos de religiosidade, fruto de sua vivência familiar.
b) As falas masculinas (do pretendente, de D. Cristóvão e do pai) representam poder patriarcal.
c) Com o poema Adélia critica o silêncio a que são submetidas muitas mulheres, uma abordagem constante em sua obra.
d) Mesmo para uma poesia a linguagem está incorreta, pois desrespeita a norma gramatical, como se observa no excesso de repetições, em apenas 13 curtos versos, de só e disse.
e) O poema apresenta um misto de fantasia e conformismo.

Leia o texto a seguir:

Encontrei meu marido às três horas da tarde
Com uma loura oxidada.
Tomavam um guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
Que nunca suspeitei conhecer
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
Gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
A poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços,
nas pernas, na cintura,
Sem me reter, peixe-piranha, bicho pior,
fêmea ofendida, uivava.
Gritei, gritei, gritei até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais, fiquei rígida,
As mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
Eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
As mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então, faço milagres.
PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2007

04. Sobre o texto acima, é correto afirmar que:

a) é uma referência ao silêncio das mulheres que, submissas, calam-se à espera do príncipe encantado.
b) no verso “Sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea ofendida, uivava”, há uma comparação entre um peixe carnívoro e voraz e um lobo.
c) por meio da metáfora peixe-piranha, a poeta critica as mulheres que se prostituem, ou roubam o marido das mulheres casadas.
d) é um poema por meio do qual o eu-lírico de Adélia Prado divaga sobre a sexualidade, a fé, o amor e a simplicidade

Casamento
Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram
ele fala coisas como ‘este foi difícil’,
‘prateou no ar dando rabanadas’
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva

05. Em relação ao texto, analise as proposições abaixo. Como se vê no poema,

I. A idéia da vida a dois, pelo casamento, longe de significar apenas amarras ou prisão, pode também significar liberdade, quando a mulher opta por viver presa a um modelo de relação que, embora interpretado como negativo, toma-o como suporte para a sua felicidade.
II. A idéia da vida a dois, pelo casamento, longe de significar liberdade, situa a mulher apenas numa relação de sujeitamento, de subordinação ao marido, fato que pode ser visto no poema
transcrito, em que o discurso masculinista situa a mulher relacionada aos afazeres domésticos ou à vida de continuação dos valores patriarcais.
III. A idéia de que a vida a dois só é possível numa igualdade entre o homem e a mulher é o tema central do poema transcrito, que discute essa questão, apontando homem e mulher como detentores de direitos iguais, como revela o último verso: “somos noivo e noiva”, demonstrando a não diferenciação de atividades entre os envolvidos na relação.

a) Apenas III é correta
d) Todas são corretas
b) Apenas II é correta
e) Nenhuma é correta
c) Apenas I é correta

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!
PRADO, Adélia. Bucólica nostálgica. Bagagem.

06. Tem comprovação no texto a
01) concepção fatalista de vida.
02) denúncia de uma realidade social carente.
03) oposição entre as ambiências urbana e campesina.
04) valorização da simplicidade e do despojamento diante da vida como fruto da vontade divina.
05) busca de explicação no divino para as contradições terrenas.

07. A estética modernista faz-se presente no texto através
01) do rebuscamento formal.
02) do lirismo extraído de situações incomuns.
03) da adoção do ritmo da prosa na poesia.
04) do tratamento crítico-irônico dado ao tema.
05) das freqüentes transgressões à língua-padrão

GRANDE DESEJO
Adélia Prado

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia*,
sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai.
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Obs.: *Cornélia era mãe de Tibério e Caio, que propuseram a 1ª reforma agrária de Roma e, por isso, foram condenados à morte, sendo defendidos vigorosamente pela mãe. Adélia é nome germânico e significa nobre.

09. Assinale a alternativa que não se justifica pelo texto.
a) Para a poeta, chorar revela algo ao mesmo tempo excêntrico e elegante.
b) As expressões mulher do povo e mãe de filhos remetem à idéia de mulher simples, comum, em oposição à idéia de mulher burguesa, de Não sou matrona.
c) A expressão tenho meus prantos indica o quanto a poeta vive chorando, por causa de suas sensibilidades sem governo.
d) Os últimos quatro versos revelam traços da religiosidade que permeia a obra da poeta.
e) O poema revela o quanto Adélia reprime sua dor, apesar de às vezes chorar.

10. Assinale a alternativa incorreta.
a) No oitavo verso, a expressão sem governo corresponde a desgovernadas.
b) A linguagem do poema tem traços de linguagem coloquial.
c) A idéia contida na expressão meu estômago humilde se opõe à de voz pra cânticos de festa.
d) Em Quando escrever o livro com o meu nome / e o nome que eu vou pôr nele a poeta remete à idéia da importância de a autora levar sua obra ao público.
e) As expressões Faço comida e como. / Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro / e atiro os restos revelam atos corriqueiros da vida da poeta.

11. Assinale a alternativa que incorreta.
a) Na expressão e atiro os restos, o substantivo reflete idéia de menosprezo, pouco caso.
b) Se em quando é bom, fico bruta há idéia de gradação, em vou com ele a uma igreja, / a uma lápide, a um descampado, a idéia é de contradição.
c) As expressões mãe dos Gracos e mãe de filhos correspondem a aposto.
d) Em vou com ele a uma igreja o pronome ele refere-se ao livro que a poeta pretende escrever.
e) No verso 8, sensibilidades corresponde a emoções, sentimentos