quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Essa terra - Antônio Torres


Essa Terra
Antônio Torres

PARTE 1 - ESSA TERRA ME AMA

A história tem seu início com o relato memorialístico feito por Totonhim, o narrador da história, acerca do retorno do irmão Nelo a seu lugar de origem,Junco, uma pequena cidade localizada no interior da Bahia. Fazia vinte anos que o irmão fugira de casa; pegara um caminhão e sumira pelo mundo, fora para São Paulo, em busca de melhores condições de vida.

A condição da família era de extrema pobreza, principalmente quando se mudaram para Feira de Santana, em busca de estudos para os filhos. O pai sempre foi contra, mesmo depois de vinte anos; por ele, ficariam na roça, pois esse negócio de colégio era “besteira”.

A princípio, Nelo mandava dinheiro para a mãe (só para a mãe), mas, com o tempo, parece ter esquecido do assunto. Por morar em São Paulo, toda a família acreditava que Nelo estava rico. Mero engano.

O encontro dos dois irmãos é relatado: Totonhim vai pegá-lo numa hospedaria e o irmão lhe diz um seco “muito prazer”. Muito prazer – seria o resumo de tudo? Apenas duas palavras para matar vinte anos de saudade? Nelo vai, enfim, para a humilde casa do irmão e quer saber como vai o pai.

- Vendeu a roça, a casa da roça e a casa da rua, pagou as dívidas, torrou o troco na cachaça, depois se mudou para Feira de Santana.

A mãe foi antes, para nos botar no ginásio. O velho ficou aqui, zanzando, desgostoso, se maldizendo de tudo. Um dia não aguentou mais e sumiu na estrada, em cima de um caminhão, aboiando.

Dos irmãos, três estão em Feira. Os pequenos. Os outros estão espalhados. Você vai ter que viajar muito, se quiser catar um a um.

Nelo nunca mais havia mandado dinheiro para a mãe e queria saber se os outros irmãos também não o davam. Os outros mal conseguem o que comer e eu mesmo fiz uma cruz na parede e jurei por ela que nunca mais daria um tostão naquela casa de loucos, ainda que estivesse com o rabo cheio de dinheiro. Podiam todos morrer à míngua, diante dos meus olhos, que eu nem sequer iria me preocupar em enterrá-los. Os outros pensam do mesmo jeito, tenho certeza.

A mãe, vivia em suas constantes reclamações: - Tenho doze filhos e me sinto tão sozinha. Se não fosse por Nelo. Não vou passar sua roupa. Não sou sua empregada. Os incomodados que se retirem.

Eis por que me retirei. Totonhim saíra de Santana e voltara para a roça, para morar com o avô.

Um dia Nelo se embebedou. Enquanto o irmão o carregava, Nelo pediu para que o levasse na casa de sua mulher. Totonhim não sabia onde era, nem mesmo que ele era casado. O irmão lhe disse que possuía dois filhos e contou-lhe sua trágica história. Um dia, já abandonado pela mulher e filhos, pensou ver sua ex-esposa num ponto de ônibus. Correu desesperadamente para vê-la e aos filhos; nesse momento, a polícia o confundiu com um ladrão e passou a correr atrás dele. Sem perceber o incidente, Nelo corria cada vez mais. Porém, quando chegou perto, o ônibus passara e a mulher se fora. Ao parar, virou presa fácil para a polícia. Imediatamente identificou Zé do Pistom, o primo que havia roubado sua mulher. O policial o acusou de tentativa de sequestro de seus próprios filhos e mandou que o espancassem. Os policiais bateram tanto que o rapaz chegou a ficar inconsciente; a pancadaria era seguidas de constante urina sobre o corpo.

Dias depois, Totonhim foi chamar Nelo para ir tomar banho no rio e encontrou-o enforcado, pendurado numa corda, no armador da rede.

Mais um condenado foi para o inferno, pregou o doido Alcino, na porta da igreja. Alcino era um homem que diziam ter endoidado depois que sua mulher o abandonara no dia da lua-de-mel. Ela fugira porque se assustara com o tamanho de seu pênis (os mais maldosos diziam que ele era filho de jumento, isso porque só transava com jumentas). Mas, desta vez, todos sabiam que o doido estava falando a verdade. Quem se mata é um condenado.

A preocupação de Totonhim, agora, era com seus pais. O que diria a eles? Como explicar que Nelo não lhes fora visitar, se o ônibus de São Paulo parava primeiro em Feira de Santana?

Seu Zé da Botica o enchia de chás calmantes. Ele pensava no caixão. Será que o pai, carpinteiro que era, faria o caixão para o filho? O último que ele fez foi para outro enforcado, um parente nosso que encontramos pendurado num galho de baraúna.

Enquanto isso, o sargento demorava a liberar o corpo do irmão. Totonhim já estava nervoso e falava com o defunto: - Você veio aqui só para fazer isso comigo? Você tinha o Brasil inteiro para fazer isso e veio escolher logo esta sala? Acorda, filho de uma égua. Avançou sobre o morto e iria bater nele, se não fosse o Zé da Botica. Começou a chorar.

Quando os dois homens retornaram à sala, um deles me pediu uma receita médica que Nelo carregava sempre no bolso. Respondi-lhe que eu nem sequer sabia que ele andava com uma receita médica no bolso. – Mas eu sei – disse o farmacêutico.

Nelo havia ido até a farmácia comprar remédios – os remédios eram para sífilis e esquistossomose.

O irmão vai para a venda e lá fica sabendo que um dia, Pedro e Nelo espancaram um homossexual na rua, por puro preconceito e Pedro pôs a culpa no amigo. Nelo levou duas surras: uma do pai e outra da mãe. Ficaram de mal e, agora, Pedro sentia um peso na consciência. O episódio ficou conhecido como "a noite do veado".

Também o sargento não gostava de Nelo porque um dia, sua mulher o elogiara; achara Nelo bonito. Eu sei que ele queria matar o meu irmão. Depois que soube de sua morte, o sargento ficou triste, desanimado. Não pense mais nisso sargento. Você perdeu apenas a chance de matar um homem, que já chegou aqui morto, como se verá.

O pai chega até a casa, tira o chapéu, se benze, depois me pergunta onde estão as tábuas e as ferramentas. Começa a fazer o caixão.

PARTE 2 - ESSA TERRA ME ENXOTA

 
O velho bateu a cancela, sem olhar para trás.

Mas não pôde evitar o baque, o último baque: aquele estremecimento que fez suas pernas bambearem, como se não quisessem ir. Pensou: - Malditas são as mulheres. Elas só pensam nas vaidades do mundo. Só prestam para pecar e arruinar os homens. Tudo por culpa dela. Por causa dessa mania de cidade e de botar os meninos no ginásio. Como se escola enchesse barriga.

O filho desapareceu no mundo, contra a sua vontade, para nunca mais voltar. De nada adiantaram os pedidos para que ficasse. Foi e, agora, nem mais escrevia para a família. No começo, mandava dinheiro para a mãe (só para a mãe!) e, agora, nunca mais o havia feito. Ele tinha vontade de ir para São Paulo ou Paraná, terras boas, onde certamente encontraria uma roça para tomar conta, como se fosse o dono.

O pai mostra-se uma pessoa amargurada. Sente falta da mulher (embora não admita), dos filhos; sente-se sozinho e abandonado. Acorda, olha para aquele colchão onde Deus lhe dera os doze filhos, olha para o quintal onde doze umbigos foram enterrados. Chama por todos: - Nelo, Noêmia, Gesito, Tonho, Adelaide. – mas não há ninguém. Sente-se relaxado, a barba por fazer; vai tomar banho no rio. Lembra-se dos fillhos, de como ensinara Nelo a nadar; da filha que fugiu com um negro (eta filha desnaturada. Deus fez os brancos para os brancos, os pretos para os pretos. Branco com preto não assentava. Ainda bem que os netos tinham cabelos bons.). Lembrou-se da mulher, das surras que ela dava nos filhos – era uma mulher sem piedade: batia nos filhos até esfolar o couro. Não aprovava judiação de espécie alguma.

Apesar de seus 60 anos, sentia-se forte para exercer sua profissão de “mestre carpina”. Vinha da raça dos vaqueiros e não temia serra-goela, do mesmo modo que João da Cruz, o pai do lugar – seu ancestral.

Lembrou-se furiosamente de sua lua-de-mel, quando ainda, ambos virgens, juntaram-se. Ele, meio sem jeito, cumpriu seu papel de marido; mas, a mulher, esta parecia já saber o que fazer. As mulheres já nascem putas. Elas têm que ser trazidas de rédea curta. Nesse dia descobriu um novo sentimento em sua vida, qualquer coisa parecida com o que se chama de ciúme.

Caminhando pelo lugar, o pai se lembra, ainda, do irmão, o irmão que ficou com as terras de seu pai e com a sua própria terra. Foi no dia em que chegou a Feira de Santana com a notícia: os homens do banco estavam apertando, iam tomar-lhe tudo. Entre o banco e o irmão, preferiu vender a propriedade ao irmão. Assim, pagaria a dívida do banco e ainda ficaria com um dinheirinho para abrir um pequeno negócio em Feira de Santana. Mas, o irmão o logrou: deu-lhe uma quantia irrisória pelas terras. Agora, estava sem nada nem ninguém.

O pai se recorda também de um homem que passara certa vez em Feira de Santana e lhe disse que vira Nelo, em São Paulo. Radiante, o pai queria saber notícias do filho, mas o rapaz tinha pouca informação; daquilo que sabia, o pai deduziu que Nelo estava muito bem, talvez até rico. Pensara naquele viajante que por ali estivera e dizia ter ido até o sul do mundo, no Paraguai. O pai começou a desconfiar dele, pois era crente Esse negócio de crente não é da lei de Deus. Para mim, crente e comunista é tudo a mesma coisa.

Ao falar em crente, ele lembra-se de tio Ascendino, um crente que odiava os udenistas. O pai voltou a chamar pelos filhos, mas ninguém respondeu. O único a chegar foi o cachorro. Eis quem acabou se revelando o melhor dos meus filhos.

Decidido, então, a deixar aquele lugar, o pai vai até a casa de seu compadre Artur para que partissem. Iria na carroceria do caminhão. Ao passar pela igreja, lembra-se de que naquele lugar batizara os seus filhos e muitos dos outros e, com orgulho, pensa que foi um Cruz, seu parente, o primeiro a fincar a primeira casa, a fazer a capela e o cruzeiro. Seguiram viagem e ele levou o cachorro, seu fiel companheiro, consigo.

PARTE 3 - ESSA TERRA ME ENLOUQUECE

Esta terceira parte do livro, começa com uma interrogação feita pelo narrador: Quem sou eu?

Ao mesmo tempo, parece conversar com a mãe, refletindo que ela havia para ali voltado, não por vontade própria, mas por necessidade, por causa da morte do filho. Enquanto estavam na sala, o pai fazia, na cozinha, o caixão para Nelo. O filho narrador, em suas reflexões, sente vontade de abraçar a mãe. Só não o fiz porque não pude. Ela estava apertando o meu pescoço com toda a força que ainda restava em suas duas calejadas e ásperas mãos. Eu queria falar, mas não conseguia. Era como se fosse a hora da minha morte. E naquela hora eu nem me lembrei que tinha apenas vinte anos e ainda podia viver muito. Nunca nos amamos, eis tudo.

Conheço este rosto.

Já o vi louco antes. Esta não é a primeira vez.

Reconheço estas mãos.

Me empurraram porta afora, quando o velho vendeu a roça e eu pedi uma indenização. (Aquilo tudo era nosso, eu disse. E “nós” significa “eu também”. Não me deram nada e eu disse: - Um dia volto aqui e mato todos vocês. Fui excomungado, para todo o sempre. Não voltei mais lá e não matei ninguém. Mas continuo excomungado.)

Enquanto a mãe tentava estrangular o filho, Nelo continuava ali no chão, bem ao seu lado. Depois de soltá-lo, ele teve de levar a mãe para o hospital, que não era perto (aqui fica implícito que tipo de hospital era este, provavelmente, um hospício).

Antes, porém, ouçamos um doido velho, doido varrido, doido de pedra, do que quiserem.

- Nesta terra os vivos não dormem e os mortos não descansam em paz – assim falava Alcino. – Enforcado não entra na igreja. Mais um condenado foi para o inferno.

O dia inteiro o louco ficou gritando essas coisas.

De repente, a narrativa é interrompida por uma causo que acontecera (ou que o louco imaginara que acontecera) com Alcino. O morto começa a conversar com ele; apavorado, Alcino diz que não quer morrer, mas Nelo o tranquiliza e o chama de “irmão”; este pensa que o condenado ainda não fora para o inferno. Nelo vem para lhe dizer que, no quintal do sargento havia um tesouro escondido; Alcino deveria chamar a beata Teodora para que esta fizesse a reza, enquanto ele cavava. Mas, egoísta que era, Alcino foi sozinho, pois queria todo o dinheiro para si. Assim que achou o tesouro, chegaram os cangaceiros e o roubaram. Se a beata estivesse lá, rezando, eles não teriam vindo. No dia seguinte, pela manhã, Alcino voltou ao lugar: o buraco que ele cavou havia desaparecido, como se ninguém nunca tivesse mexido naquele terreno.

Sentaram-se ao pé do muro. Queriam algo que os encorajasse a ir até o quintal do sargento. O morto sugeriu que fossem a um puteiro “tomar uma”. Mas, no local não havia um puteiro, então, pensaram em abrir um. Mas, Alcino só possuía experiências sexuais com “jumentas”. Então, a solução era ir até a venda; mas ninguém venderia cachaça fiado a um louco, muito menos a um morto. Pensaram em dizer que quem havia pedido a cachaça era o pai de Nelo; a mentira, porém, não deu certo e Alcino voltou de mãos vazias.

- Irmão, irmão, eles não acreditaram em mim. Raça de filhos da puta. Irmão, irmão, irmão...

Não havia mais irmão, não havia mais nada. Também não havia nem sombra de gente dentro do quintal. – Irmão, irmão. Desceu do muro e continuou correndo e gritando. Dobrou o beco, voou sobre a rampa que dava na praça, atingiu a calçada da igreja. Agora ele ia fazer o sermão mais bonito da sua vida.

O narrador começa a lembrar do avô, que morava com ele, e seus costumes antigos. Depois, pensa no pai: - Não ande com a cabeça no tempo. Bote o chapéu. Quem anda com a cabeça no tempo perde o juízo.

A narrativa sofre outro corte, e o foco é a mãe, seu sofrimento, sua dor, suas brigas com o pai (brigas que acabavam sempre em pancadaria) e a sua esperança depositada em Nelo, para ela, o único filho que poderia ajudá-la. Veja Nelo meu filho se é vida que se apresente uma mulher viver apanhando do marido venha me buscar. A mulher cada vez mais dava sinais de loucura: escrevera para o filho e dissera que o pai tomara veneno ( na realidade, quem tomara veneno fora o irmão do pai, mas ela acreditava que fora o marido).

Nelo meu filho o fim destas mal traçadas linhas é dar-te as minhas notícias e ao mesmo tempo saber das tuas Como tens passado? Bem não é? Aqui todos em paz graças a Deus Seu pai bebeu veneno Nelo meu filho essa é que foi a maior tristeza da minha vida. Tenha dó da sua mãe Eu nunca lhe pedi isso é a primeira vez venha me buscar Você é a única pessoa neste mundo Faça isso por sua velha e pobre mãe Eu lhe peço.

Enquanto isso, o pai fazia o caixão e pigarreava na cozinha. Papai tosse. Trabalha e tosse. Está fumando demais. Fuma e bebe demais.

O filho narrador vai buscar o pano preto (e isso lhe causa horror), enquanto os parentes reclamam que o morto não possui uma mortalha. Mas, e a mãe? Minha mãe, ora minha mãe, esqueçam-na. Queriam saber o que Nelo trouxera na mala. Nada. Estava vazia.

O caixão estava pronto.

PARTE 4 - ESSA TERRA ME AMA

O filho narrador consegue, com o prefeito, um carro para ir levar a mãe ao hospital.

- Vamos passear.

- Estamos passeando? Onde estamos passeando?

Qualquer resposta será uma mentira. Promete que vai dormir a viagem inteira, promete? Assim chegaremos logo. Se quiser, reze um pouco, para chamar o sono.
Ela vomita sobre as minhas pernas. Abaixo o vidro e boto o seu rosto para fora. O vento sopra fiapos do seu vômito na minha roupa, na minha cara, em tudo.
O narrador lembra que a mãe é viciada em jogo de bicho. Todo o dinheiro que Nelo lhe mandava, ela apostava. Enquanto isso, os cobradores batiam em sua porta e os filhos passavam fome. Papai se queixa da sorte. Diz que a mudança para Feira de Santana foi a pior desgraça da sua vida. Minha terra não tem palmeiras. Tem suco de mata-pasto. Veneno da melhor qualidade.

Enquanto levava a mãe para o hospital, observava-a: ela estava ficando cega, já não mais conseguia pôr a linha na agulha. Reclamava de suas filhas, que nunca a ajudaram.

- Vou escrever para o Nelo. Ele precisa vir aqui para me levar a um médico. Por que será que Nelo nunca vem aqui?

Desta vez sou eu quem sente uma dor imensa. Na alma? Ela viu o morto e não acreditou.

- Antes de você me acordar, eu tive um pesadelo horrível. Sonhei que ele tinha morrido. Foi horrível. Nelo é tão novo ainda. Deus que lhe dê muitos anos, é só isso o que eu peço.

O motorista da prefeitura dirigia cada vez mais rápido. A mãe não conseguia identificar onde estava. O filho narrador se lembra de que a mãe um dia lhe dissera que queria ter nascido homem para poder mandar em seu próprio destino. Ir para onde bem entendesse, sem ter que dar satisfações a ninguém. “Filha. Não me fale em filhas. Eu queria tanto só ter tido filho homem.”

A mãe, pensando se tratar de Nelo, começa a revelar ao filho narrador o triste destino de suas filhas: Cinco filhas, cinco mulheres, cinco vezes azarada. Adelaide casara-se com um negro e apanhava todos os dias, fora encontrada pela mãe em um puteiro. Após o casamento, engravidara e tivera um filho. O marido, com ciúmes do médico que fez o parto, entrou no quarto atirando – um tiro pegara na perna da sogra (isso não era loucura, pois ela possuía as marcas na perna) e dois outros na barriga da mulher. O caso sempre foi escondido deles. A outra filha, Noêmia fora roubada por um homem que a engravidara e, um belo dia, viera devolver a filha, dizendo que não mais a queria por que ela já não mais era moça; a mãe o xingou, o médico provou que o filho era dele e eles vivem juntos até hoje; tiveram oito filhos. A terceira filha, Zuleide, recebia homens em sua própria cama, escondida da mãe – as outras duas filhas sabiam, viam tudo e nunca diziam nada; foi, por isso, expulsa de casa quando a mãe, um dia a pegou. E, finalmente, as duas outras filhas saíram de casa para seguir a religião, “um reino cheio de luzes”. Ela se lembra ainda da cantiga que cantava para Nelo: “Não chores, meu filho; Não chores que a vida é luta renhida: Viver é lutar.”

O filho teme que a mãe não chegue viva ao hospital; agora, pede para que o motorista acelere. Chegaram, foram falar com a enfermeira, que lhes dissera que chegaram cedo demais. Não, querida. Chegamos tarde demais. Abaixa os olhos. A cena é muda. Ainda assim ouço-a dizer: - Sabe o que é dar plantão numa casa de loucos e ainda por cima ser acordada por um homem e uma mulher fedendo a vômito? O filho interna a mãe.

Não me esperaram para o enterro. Achei ótimo. Papai se queixou: - Tinha tão pouca gente. Falou ao papai que a internação da mãe iria custar dinheiro. Todo mês.

- Eu também não vou durar muito. Tenho certeza disso.

Foi então que comecei a me sentir perdido, desamparado, sozinho. Tudo o que me restava era um imenso absurdo. Mamãe absurdo. Papai Absurdo. Eu Absurdo. “Vives por um fio de puro acaso.” E te sentes filho desse acaso. A revolta, outra vez e como sempre, mas agora maior, mais perigosa. Não morrerás de susto, bala ou vício. Morrerás atolado em problemas, a doce herança que te relegaram. O enterro foi pago com dinheiro emprestado a juros. Uma miséria, de uma miséria de outra miséria. Teu pai não sabe se vai ter dinheiro para comer, daqui pra frente, quanto mais se vai pagar os juros do enterro de um filho.

Por fim, o filho narrador conta ao pai que vai embora. Para onde? Para São Paulo. Com o dinheiro que receberia pela Prefeitura, compraria uma passagem e venderia a vaca que o avô deixara.

O pai não se conformava: - Você é igual aos outros. Não gosta daqui – falou zangado. Ninguém gosta daqui. Ninguém tem amor a esta terra.

Ele tinha, eu sabia, todos sabiam.

Passado o sermão, papai amansou a voz. Parecia mais conformado do que aborrecido:

- Você faz bem – disse. – Siga o exemplo – Abaixou as vistas, sem completar o que ia dizer.

Créditos: Manoela Falcón Silveira, Profª Ms. em Literatura 
              Fabiana Ferreira da Costa, Profª Ms. em Literatura

As Meninas - Questões


QUESTÕES PARA REFLETIR AS MENINAS  de Lygia Fagundes Telles

01. Sobre o romance As Meninas de Lygia Fagundes Telles é correto afirmar:
(   ) O tempo da narrativa acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente.
(  ) A obra mostra um mundo em que os ideais de esquerda tornam-se a única alternativa para enfrentar a dureza do regime e explicar o mundo desordenado.
(  ) O pensionato no qual se desenrola a ação é um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador e consegue impedir qualquer intromissão do mundo externo.
(   ) Toda a ação se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas experiências em busca de auto-conhecimento.
(   ) O foco narrativo é cambiante: ele se desloca constantemente e inesperadamente para o fluxo de consciência das três protagonistas

02. Sobre a personagem Lorena Vaz Leme só não se pode afirmar:
01) Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular.
02) Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado
03) Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato
04) o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente conflito com o mundo exterior.
05) Demonstra sentimentos de superioridade e concretiza este sentimento no distanciamento das outras duas companheiras

03. Sobre Lia de Melo Shultz só não se pode afirmar:
01) veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.
02) Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista.
03) Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político e na segurança que encontra no amor de Miguel.
04) Dedica todo seu tempo à reivindicação política, fato que a torna frágil nas relações pessoais e insegura na sua sexualidade pouco explorada.
05) Estuda Ciências Sociais e participa do foco de agitações estudantis, onde se envolve com um grupo militante da esquerda

04. Sobre Ana Clara Conceição só não se pode afirmar:

01) Apresenta temperamento problemático e personalidade inconsistente
02) Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos.
03) Não obstante sua vida seja marcada pela pobreza, possui espírito prático e decidido e assim planeja casar-se com um homem rico.
04) Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos, cheiros, etc
05) Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros

Leia o texto e responda:
- Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.
- Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.
Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.
- Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.
- Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.
Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.

05. Sobre o texto acima é incorreto afirmar que:
01) Lia apresenta faz uma leitura do mundo como cruel e fragmentado em que as múltiplas misérias são resultado da desorientação em que se encontra o ser humano.
02)  Na ótica da personagem o romantismo religioso e social apenas mascaram a brutalidade da condição humana.
03) O discurso de lia representa sua inabalável crença em suas ideologias reformistas e pretende convencer a religiosa da importância de suas colocações.
04) O discurso sobre a sensação de segurança individual é coerente com o momento histórico que a obra literária representa.
05) A personagem faz referência aos setores da igreja que assumiram posição contrária ao regime.

06. Sobre a divagação da personagem que intercala os discursos diretos, pode-se dizer que:
01) Sua distração indica a pouca importância da política para a personagem
02) O espanto com a aparição da abelha “numa noite dessas” amplia a condição de descrença e insegurança.
03) Sendo escritora, Lia escreve sobre animais e gostaria de dedicar-se às abelhas.
04) Este monólogo interior é estranho ao diálogo entre Lia e Irma Alix em somente atrapalha a compreensão do texto.
05) A referência à fábula da cigarra e da formiga revela a consciência infantil da personagem Lia.

Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé. [...]
Que idéia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
– Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato.

Estou demais aperreada para ficar ouvindo sentimentos lorenenses, ô! Miguel, como preciso de você. Falo baixo mas devo estar botando fogo pelo nariz.
(TELLES 1998: 13-14)

07. O texto acima
01) Indica o engajamento político das jovens ainda que em nível diferente
02) Aponta para a semelhança de comportamento entre as duas personagens
03) Revela como cada personagem está comprometida com o seus próprios anseios e ideais
04) Indica o altruísmo de ambas as personagens, já que formam uma amizade verdadeira.
05) Denuncia a indiferença e o egoísmo das personagens, que mentem e falseiam a amizade demonstrada.

“Padrão afro. Tem mulher hino e mulher balada”, pensou Lorena tirando o pijama. Sentou-se na borda da banheira e percorreu com as pontas dos dedos a superfície da água. “Eu sou uma balada medieval.” E Ana Clara? E Lia? Que gênero de música eram elas? A única forma de ajudá-las seria oferecer-lhes coisas que não tinham.
dálias mas fazia frio. (TELLES 1998: 59-60)

08. Lorena, ao designar para si a “Balada medieval”:
01) faz referência à religiosidade profunda, marca da personagem.
02) revela o moralismo profundo que a torna amarga e inquisitória
03) indica sua tendência para a idealização e a sua espera amorosa.
04) pretende colocar-se de forma superior às amigas por quem nutre aversão.
05) indica a orientação para a culpa e para o remorso.

As Meninas - Lygia Fagundes Telles


AS MENINAS
Lygia Fagundes Telles

O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente. O encanto e a dificuldade aparente da leitura repousam no foco narrativo cambiante: Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz contam a
própria história através do fluxo de consciência, misturando suas falas, ações, lembranças e críticas recíprocas. Depois dessa surpresa inicial, o leitor acaba por identificar o estilo de cada personagem e sente-se desafiado a desvendar o universo interior das três "meninas"- uma paulista quatrocentona, uma baiana "terrorista" e uma modelo de moral "duvidosa" e viciada em drogas. Os capítulos não têm nome, mas números.


ENREDO
"Um" - Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz,
que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o
carro de "mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena, conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos freqüentes
presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (Aliás, passa o livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranqüilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao contrário", para dar sorte) para o "aparelho" (=grupo de resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas conseqüências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da (s) amiga (s).

"Dois" - Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus - e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos
(ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos amantes.Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as jóias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é difícil e complicado.

"Três" - Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade com o texto "A Máquina do mundo", de Carlos Drummond de Andrade), como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora a chegada de Lia e A. Clara e a "invasão" das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e magra, mostra certa inveja da
beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino", enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara "arrombou" a
privacidade de Lorena, obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima, mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na falta de luz e subseqüente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor edipiano.

"Quatro" - Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (A. Clara) sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços - "Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de ouro" (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o
suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa na praia, onde A. Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

"Cinco" - Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante, Beatriz) , em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e
as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo").
Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias.
Coloca um Noturno de Chopin e serve constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

"Seis" - Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia ("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano), engajamento políticosocial, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre,
que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade, do presente (fases da vida!...); de A. Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro.
Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que serve para a vida das duas: "Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei" (Gênesis).

"Sete" - Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema... Quer ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em latim,
enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas mostram-se preocupadas com a gravidez de Ana "Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira vez"(M.N. é ginecologista, um "gentleman").

"Oito" - Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm álbum de retratos...
Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar seus sumiço. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 h da noite. Não consegue táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de boêmio - retratos na parede,
vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

"Nove" - Na banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo - na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto-identificação, transferência de afetos. Lia quer provar
que M.N. está mais para pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

"Dez" - Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra Dr. Francis.
Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum de fotos na garagem:
acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por auto-defesa. Ganha roupas e mala para a viagem.

"Onze" - Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente A. Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente
Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que Guga virá procurá-la. Não vêem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois a "dor do remorso dói mais que a dor física"(Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: A. Clara está morta.

"Doze" - Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de A. Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela amiga, além dos "discursos". A bolsa de A. Clara está aberta: talvez dali ela tirara a própria morte. Lorena tem idéias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta A. Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pista comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As duas amigas carregam A. Clara através da noite providencialmente nebulosa e abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

AÇÃO
A ação do livro é prevalentemente interiorizada. Quase nada acontece na realidade exterior; a vidinha pacata e rotineira no pensionato, as conversas intermináveis, os estudos, as visitas das personagens ao redor do quarto de Lorena - centro daquele microcosmo -, poucos momentos na faculdade e no "aparelho"; as atitudes contraditórias de Ana Clara e sua morte; a solução dada pelas amigas para se livrarem de um cadáver comprometedor. Tudo se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas experiências em busca de auto-conhecimento, de solução para seus traumas e conflitos interiores, para a exorcização de seus "fantasmas".

PERSONAGENS
Lorena Vaz Leme, filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com freqüência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do
irmão e a subseqüente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena tenta "equilibrar-se" fechando-se em uma concha dourada dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas freqüentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de A. Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a
impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

Lia de Melo Schultz serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência. Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso.
Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

Ana Clara Conceição apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente. Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida. Ana foi seduzida por um dentista, que abusa sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes. Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada,
cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.

TEMPO
Subjaz à narrativa uma seqüência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente. Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais das três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias.

ESPAÇO
Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os mortos".

FOCO NARRATIVO
O foco narrativo em primeira pessoa é manipulado pela Autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente (e inesperadamente!) para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-nos nessas freqüentes invasões à privacidade de A. Clara, Lorena e Lião, que se vão desnudando paulatinamente diante de nós. Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lião e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva". Superada essa dificuldade, o leitor mergulha de corpo e alma no universo fantástico dessas três meninas encantadoras, representantes autênticas daquele que foi um dos períodos mais importantes e difíceis para a emancipação da mulher, para a liberdade de pensamento e para a realização individual dentro de um universo politicamente conturbado. O romance As Meninas oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de três pessoas em busca de si mesmas; de outro, uma amostra dos problemas cruciais que agitaram a juventude durante um dos períodos mais conturbados da história do Brasil, que Lygia Fagundes Telles teve a ousadia e a coragem de denunciar.