quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Essa terra - Questões


Vagaroso e solitário, o Junco sobrevive às suas próprias mágoas, com a certeza de quem já conheceu dias piores, e ainda assim continua de pé, para contar como foi. Em 1932, o lugar esteve para ser trocado do estado da Bahia para o mapa do inferno, na pior seca de que já se teve notícia por essas bandas, hoje reverenciada em cada caveira de boi pendurada numa estaca para dar sorte. (...)
Ora vejam bem: nossos avós tinham muitos pastos, nossos pais tinham poucos pastos e nós não temos nenhum.
(...) Nelo descobriu que queria ir embora no dia em que viu os homens do jipe. Estava com 17 anos. Ele iria passar mais três anos para se despregar do cós das calças de papai. Três anos sonhando todas as noites com a fala e as roupas daqueles bancários — a fala e a roupa de quem, com toda certeza, dava muita sorte com as mulheres.
Antônio Torres. Essa terra. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.15 e 18.

Questão 01 - Com base nos fragmentos de texto selecionados do romance Essa terra, julgue os itens a seguir.
a)    a) Os fragmentos narrativos seguem a ordem cronológica dos fatos, começando em 1932 e terminando com a saída de Nelo do meio rural.
b)    b) Depreende-se do primeiro parágrafo que o Junco é reverenciado, no presente, por sua resistência à seca.
c)     c) No romance Essa terra, a forma fragmentada de narrar corresponde à história que é narrada: a fragmentação do mundo dos sertanejos e a desagregação da família do personagem-narrador, Totonhim.
d)     d) O personagem Nelo personifica a tese central do romance: pela migração para os grandes centros urbanos, o sertanejo pode superar o atraso e a miséria do sertão.
e)    e)  Embora retome o tema da seca no sertão, central na ficção regionalista brasileira, Essa terra é considerado um romance urbano porque justifica a miséria do sertanejo não pelas condições climáticas e geográficas, mas pela expansão do modo de produção capitalista e da especulação financeira em todo o país.

Questão 02 - Considerando os aspectos morfossintáticos dos trechos acima, julgue os próximos itens.
a)      a) A gradação “muitos pastos”, “poucos pastos”, “nenhum”, associada às três gerações, avós, pais e filhos, reforça a referência a “mapa do inferno”.
b)      b) A expressão “se despregar do cós das calças de papai” está empregada em sentido conotativo.
c)       c) Em “Três anos sonhando todas as noites”, a expressão sublinhada corresponde ao sentido de toda noite, mas não, ao de toda a noite ou a noite toda.
d)      d) O termo “daqueles bancários” retoma, por coesão, a expressão “os homens do jipe”.
e)      e) No último parágrafo, o travessão foi empregado para indicar a ocorrência de discurso direto

Repetia docemente as palavras de sinhá Vitória ... e andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias ... chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. (RAMOS,1941)
Cresce logo, menino, pra você ir pra São Paulo! (TORRES, 2001).

Questão 03 - Comsidere os fragmentos e a leitura dos romances de que fazem parte para marcar a alternativa incorreta:
a)      a) Tanto sinhá Vitória quanto a mãe de Nelo, deixam subjacente a compreensão de que seus sonhos só seriam possíveis de se concretizarem em uma cidade grande
b)      b) Igual a sinhá Vitória do romance Vidas Secas, a mãe de Nelo repetiam como ladainha religiosa o que desejavam e pensavam dos filhos.
c)      c) Ambos os textos delineiam o Sul como lugar de esperança e sobrevivência para os nordestinos flagelados da seca e da exploração
d)      d) O sul é representado como terra de avanços e civilização.
e)      e) Nos dois romances os personagens migram em função da miséria e se perdem na grande metrópole do país, sem retorno à suas terras.

Nelo descobriu que queria ir embora no dia em que viu os homens do jipe. Estava com 17 anos. Ele iria passar mais três anos para se despregar do cós das calças de papai. Três anos sonhando todas as noites com a fala e as roupas daqueles bancários ? a fala e a roupa de quem, com toda certeza, dava muita sorte com mulheres. (TORRES, 1976, p. 11)
Questão 04 - Do texto acima é possível inferir que o desejo de Nelo de deixar sua terra:
a)     a) Foi motivado pelo jipe, pois possibilitaria o transporte necessário.
b)     b) Foi planejado com o raciocínio durante três anos
c)     c) Era mootivado principalmente pelas mulheres que poderia conhecer
d)     d) É alimentado pelo poder e elegância que os bancários inspiravam.
e)     e) Foi interditado pelo pai durante três anos

Quem não mudou em nada mesmo foi um lugarejo de sopapo, caibro, telha e cal, mas a questão agora é saber se meu irmão ainda lembra de cada parente que deixou nestas brenhas, um a um, ele que, não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus Ray-bans, seu rádio de pilha — faladorzinho como um corno — e um relógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens — e eu, que nem havia nascido quando ele foi embora, ia ver se acordava o grande homem de duas décadas de sono, porque o grande homem parecia ter voltado apenas para dormir. (ET, p.10)

Questão 05 - Sobre o texto acima, assinale o que não  for correto:
a)       a) O fragmento textual mostra como a projeção de uma vida bem sucedida encontra-se no romance apropriada pela efetivação do poder de aquisição de bens materiais.
b)       b) O Junco faz o herói adormecer, o sono de Nelo é mórbido e Totonhim o pressente.
c)       c) Nelo caiu nas malhas da sedução metropolitana admirado por sua moda e sua tecnologia.
d)       d) O narrador expressa grande ressentimento por não ter conseguido os bens e a mesma posição do irmão que agora lhe parece “faladorzinho como um corno”
e)        e) O texto é marcado por uma linguagem fragmentada e irônica.

Aqui vivi e morri um pouco todos os dias.
No meio da fumaça, no meio do dinheiro.
Não sei se fico ou se volto.
Não sei se estou em São Paulo ou no Junco
”. (TORRES,1976, p. 63)

Questão 06 - A cantiga de Nelo acima, expressa:
a)      a) Acomodação ao ambiente
b)      b) Melancolia bucólica
c)      c) Profunda crise de identidade
d)      d) Ganância capitalista
e)      e) Perda da memória afetiva

Questão 07 - Das alternativas abaixo, assinale a que for incorreta:
a)      a) Ao retornar, Nelo tem a consciência de que o seu desenraizamento já não lhe permitiria a re-integração à terra natal.
b)      b) A fragmentação da estrutura do romance igualmente refrata e reflete a identidade fragmentada dos personagens
c)      c) Os personagens de Essa terra fracassam por causa de uma realidade complexa e esmagadora que não conseguem compreender,
d)     d) Junco e São Paulo estão adornados na memória de Nelo e ligados entre si pela desilusão, pelo fracasso e sofrimento.
e)      e) Nelo fraqueza em voltar para a sua terra natal, pois já havia se firmado no trabalho e constituído família.

— Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio?
— O senhor está com razão.
— Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue.
— Não esqueceu, não, tio — respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta do meu irmão parecia ter mais significado do que quando dr. Dantas Júnior veio anunciar que havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado federal bem votado.
(ET, p. 10)

Questão 08 – Assinale a alternativa que interpreta incorretamente o texto acima:
a)      a) A chegada de Nelo é sinal de mudança para os habitantes
b)      b) A volta dele é esperada não só pelo parente, mas também pela população da cidade.
c)      c) O tio acusa o sobrinho de não ter vergonha na cara, por esquecer de cumprimentá-lo.
d)      d) O povo do Junco era vítima do sensacionalismo político.
e)      e) A inscrição da cidade no mapa não parece ter valor absoluto para os moradores.

A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo.
—Nelo — gritei da calçada. [...]
Não ouvi o que ele respondeu, quer dizer, não houve resposta. Não houve e houve. Na roça me falavam de um pássaro mal-assombrado, que vinha perturbar uma moça, toda vez que ela saía ao terreiro, a qualquer hora da noite. Podia ser meu irmão quem acabava de piar no meu ouvido, pelo bico daquele pássaro noturno e invisível, no qual eu nunca acreditei. Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse — e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.
(ET, p. 12)

Questão 09 – Pela leitura do texto acima é possível inferir que:
a)    a) O narrador pressente o triste evento em razão da sua crença nos mitos religiosos de sua terra
b)    b) O texto se baseia no contraste estabelecido pela serenidade em que se encontrava o pensamento do narrador e a agonia provocada pelo acontecido.
c)    c) O narrador se encontra em estado de desolação, o que se traduz na forma fragmentada do seu discurso.
d)    d) O narrador corre apressado para casa pois sabia exatamente o que estava acontecendo.


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